O verbo do poeta
Por terras de Espanha e Portugal. Mas as férias acabaram. Não tenho nenhuma nova tradução e nada a dizer para atualizar a vida deste blog, apenas a constatação que ninguém escreve tão bem o português como o Camilo Castelo Branco. No entanto, no entanto, tenho ca’ um link interessantissimo – e eis a razão e justificação deste post - para escutar as ultimas aulas do poeta Bruno Tolentino: aqui.
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Desassossego
Nem tudo no Livro do Desassossego é nihilismo com pernas esplendidamente bem torneadas. Ha’ vida ali também.
Ha’ um trecho no qual Bernardo Soares percebe que os outros não são apenas palidas imagens de um mundo oco mas, ao contrario, carregam uma alma : « sinto de repente que o marceeiro da esquina é um ente espiritual, que o marçano (…) é, verdadeiramente, uma alma capaz de sofrer. »
Apos o suicidio do rapazinho da tabacaria, o narrador exclama : « Coitado, ele também existia ! » Até aquele momento, o escritor via no rapaz apenas alguém que iria « encalvecer » precocimente.
E’ de se perguntar : – Qual é o real proveito das leituras e leituras e reflexões sobre a literatura ? Criar também, por parte do leitor insaciavel, uma carapaça ao real, fruto, não da crassa ignorância, mas das finas meditações estéticas ?
Em outro trecho, o escritor nos diz, colocando-nos em alerta contra eventuais influências românticas : « Os que choram o mal do mundo são isolados – não choram senão o proprio. (…) Um Leopardi, um Antero não têm amado ou amante ? O universo é mal (…) O Job é coberto de bolhas ? A terra esta’ coberta de bolhas. » (E eu acrescento : Houellebecq é chifrado e leva um pé na bunda da esposa ? Este mundo é um grande açougue, e o açougueiro é corno. Sartre lembra um Quasimodo ? O Ser e o Naaada.)
Ha’ varios sabios insights no livro. O tédio, por exemplo, o que seria la’ o tédio ? « … E’ talvez, no fundo, a insatisfação da alma intima por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. »
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